Simplesmente ter vivido bastante
Já fazia horas que estava em frente ao espelho, olhava-se de frente, de perfil, virava para a esquerda, depois o perfil direito, não tinha jeito cada vez pior, o rosto era a sua identidade pessoal, intransferível.
O tempo é matador não tem para onde correr, a pele toda disforme pela vida, que nunca foi sua mãe, mas foi uma das piores madrastas. Nada foi fácil pra ele que já viveu muitas historias, agora morando no mini-quarto de pensão. Passava horas deitado na cama mal ajambrada, seus pensamentos voltados para um passado que sabia que não tinha a menor chance de voltar. Lembrava-se das noites memoráveis que viveu nos bares onde tocava sua guitarra, nos barzinhos da época e também nas apresentações com cantores e cantoras em shows pelo país. Ganhou muito dinheiro, mas também detonou em bebidas, amores passionais, sexos a granel. Viveu tudo que a grande maioria não teve chance de viver e chegou aonde muita gente não poderia ter chegado. Conheceu pessoas interessantes, teve momentos mágicos que a vida pode lhe proporcionar.
Sua desgraça foi ter saído naquele dia fatal quando um caminhão quase atropelou seu carro que num desvio chocou-se contra o poste. Do desastre ficou com a sua mão esquerda defeituosa, assim sem poder tocar seu blues preferido, suas musicas preferidas, seus MPB´s, fazer seus arcordes no violão, viu-se pouco a pouco desmoronar o que sequer havia estruturado, acreditou e esqueceu-se de que tudo que é sólido desmancha-se no ar.